25 de Março de 2017, Trienal de Arquitectura de Lisboa
Foram apresentadas e debatidas as questões dos Projectistas e Construtores relativas aos problemas que enfrentam na legalização deste tipo de construção, abordando as suas experiências, opiniões e formuladas propostas de solução.

Oradores:
Alexandre Bastos, Arquitecto - Francisco Seixas, Construtor - Luís Martins, Construtor - Maria da Luz Seixas, Arquitecta - Miguel Rocha, Arquitecto - Vasco Farias, Engenheiro
Moderadores:
Idália Gomes - Luís Mateus
1ª PARTE
2ª PARTE
Síntese moderadores
Conclusões preliminares
A sessão inicial subordinada ao tema Estruturas contou com a presença de construtores e projectistas com elevada experiência na concepção e obra de construções em terra. Dada a sua maior predominância no território nacional, a taipa como técnica construtiva, tomou protagonismo nas reflexões dos oradores e do público presente. O debate centrou-se na resposta às seguintes questões principais, lançadas aos convidados em ao público presente:
1. Quais os critérios de verificação usados em projecto vs. satisfação dos requisitos regulamentares aplicáveis a outras estruturas (incluindo acções acidentais, como a de um sismo)?
2. A função resistente deve ser depositada exclusivamente no material terra ou com recurso a outras soluções/materiais resistentes?
3. Quais as lacunas de projecto mais frequentes na perspectiva de quem executa: pormenorização, planeamento, acções de controlo da qualidade.
4. Qual é a prática nos processos de licenciamento e autorizações junto de municípios e outras entidades reguladoras (áreas protegidas)? Propostas de alteração legislativa específica. Estratégias, acções futuras.
Na perspectiva dos projectistas presentes é possível satisfazer os requisitos de segurança estrutural, incluindo os relativos à acção sísmica, através da introdução de materiais e técnicas de reforço complementares que conferem uma melhoria do comportamento global das estruturas em terra. Não se afigura possível satisfazer integralmente os requisitos de segurança estrutural, em particular na resposta à acção sísmica, sem que se prevejam soluções específicas para esse fim, sejam elas a prever em fase de projecto de construção novas ou em projecto de reabilitação. Essa necessidade decorre das características mecânicas desfavoráveis do material taipa (não estabilizado), do btc ou do adobe, em especial da sua fraca resistência à tracção e flexão.
Dentre o grupo de convidados, não é unânime a forma de encarar o papel estrutural dos elementos em terra na construção, sendo que alguns dos projectistas admitem a integração comum nos seus projectos de outras soluções e materiais resistentes, ou a introdução de mecanismos de alteração dos estados de tensão das alvenarias de maneira a contrariar a fraca resistência à tracção do material terra compactada. Alguns exemplos de soluções - técnicas e materiais - usualmente prescritas pelos projectistas e aplicadas pelos construtores foram referidos.
Foi sublinhado por todos os convidados a importância da interação entre projectista e construtor, antes e durante a obra, em especial no sentido de avaliar a aptidão dos materiais a aplicar. Neste âmbito, foi também sublinhada a importância de se estabalecerem critérios prévios de avaliação e caracterização dos materiais a aplicar, em particular dos elementos que integram o material terra.
De acordo com a experiência dos projectistas convidados, não existem actualmente condicionantes a destacar nos processos de submissão e aprovação dos projectos de execução por parte das entidades licenciadoras.
Foi sublinhada a falta de normalização, que se deve centrar primeiramente nas características dos materiais - neste caso a terra. A importância de desenvolver passos no sentido da normalização dos materiais foi aceite unanimemente. A esse propósito, foi abordada a possibilidade de constituição de uma comissão técnica, com o apoio de uma instituição universitária presente, integrando também representantes da associação CdT, no sentido de iniciar estudos conjuntos com esse fim. Foi igualmente abordado o tema da certificação de materiais, o que foi entendido como um mecanismo limitador da liberdade de concepção e da correcta execução de obras desta natureza, na medida em que limita o lote de materiais a utilizar e também a sua proveniência.
Será ainda importante compreender as diferentes tecnologias para as diferentes técnicas. Salientou-se ainda, a importância de analisar o comportamento do material terra nas suas propriedades físicas, mecânicas e químicas, uma vez que, nem toda a terra serve para as diferentes técnicas construtivas. Será assim, fundamental conhecer analisar as características realizando ensaios de caracterização. Foi sublinhada a importância de relacionar a Engenharia Civil com a Engenharia Geotécnica.
Os principais aspectos apontados pelos presentes como os principais passos a desenvolver no contexto do enquadramento legal e normativo da construção em terra foram: - a caracterização (mecânica, física e química) da terra a aplicar em obra; - a normalização a nível do material; - a criação de um guia orientador para as diferentes técnicas construtivas; - a formação de: projetistas, empreiteiros, mestres de obras (que escasseiam), empresas e público em geral.